Vermelho

Acordaram e fitaram um ao outro por instantes e perceberam que eram metades de um inteiro que se encontravam ali e ela ouviu aquela voz grave e sonolenta dizendo bem perto:

– Quem diria… Estou absolutamente apaixonado por você.
Ela sorriu como concordância de tal declaração e era o cheiro do desejo que estava no ar. Então, algo parecido com amor banhou a cama naquela manhã.
Jogaram-se juntos no chuveiro para mais um dia comum e seria factualmente comum, não fosse pela correspondência que ele recebera antes de sair de casa – um envelope pardo sem remetente com uma foto dele próprio e uma única palavra no verso da foto dava-lhe a exata resposta de quem o enviara – A Carne. Deixou a informação para depois. Deixou a vida para depois.
Durante toda manhã recebeu mensagens excitantes da namorada para quem se declarava em absoluta paixão sob os lençóis da sua cama e não pensava em mais nada além de encontrá-la para realizar os desejos da amada expressos pelos recados cada vez mais quentes. Sua vida tomara um novo rumo após aquela manhã. Havia decidido que casaria com aquela que seria a última mulher da sua vida e então tomou um rumo diferente e foi à joalheria escolher a cor do seu futuro. Preparou-se toda a tarde para o jantar e para a surpresa enquanto tremia por dentro de medo e paixão.
Enquanto isso, no outro lado da cidade ela sofria sem saber o que acontecia e nem muito menos o motivo pelo qual passava por torturas e ataques daquela forma. Um seqüestro e o corpo já em carne e sangue aparentes. Naquele momento ela pensou na voz do amado absolutamente apaixonado e pronto para viver o grande amor e na chance que teve de ser feliz numa vida mesquinha.
Depois de sessões seguidas de torturas, ela, já sem as unhas e com a face cheia de incisões e sangue, foi levada ao que chamam de ‘O último’. Chegando lá, era apenas a sombra do exaustor e das grades o que se via, pois os olhos estavam machucados e o som infernal das gotas de água do esgoto incomodava e assustava a cada instante. O seu pavor era tamanho e o cheiro do medo estava no ar e chegava a incomodar tamanha inocência.
        Subitamente os passos de um salto alto lentamente a fizeram pensar:
– Estou salva. Então gritou. – Eu estou aqui, me ajudem!
Sua única ânsia era pela vida naquele momento e não importava como, sairia dali de algum jeito. O som do salto se aproximou e a voz sussurrou com um hálito ácido:
– Ele faz gostoso, não faz? Ele te chama de cadelinha e vadia? Você gosta dos tapinhas?
E o susto foi imenso e os nervos já não agüentavam e seu corpo não obedecia mais os comandos cerebrais. Suando em bicas e chorando em desespero ela pediu para não morrer. Pediu por todos os santos e repetidas vezes. Clamou por sua vida, clamou por seu sangue.
Quando o salto silenciou, ela ouviu a voz feminina e satisfeita:
– Você a ama? Diga… Você a ama?
Então seu clamor aumentou e suas súplicas se tornavam cada vez mais intensas.
– Diga que a ama se não quiser que ela morra!
Passou o celular descartável para a sua vítima e disse:
– Diga que o ama!
Ela só chorava e não conseguia falar absolutamente nada. Ao que ouviu um grito bem perto:
– DIGA QUE O AMA OU VOCÊ MORRE!
(Eu te amo)
        Para que ela pudesse ouvir a voz do seu amado pela última vez, o telefone ficou em viva-voz e ouviu-se em prantos:
– Deus, não a deixe morrer!
        E a raiva deixou que uma .40-PT100 descarregasse do outro lado da linha seus 11 projéteis.
        Silêncio e desespero tocavam-se nesse momento e depois disso o único som que se ouvia eram os passos do salto alto vermelho saindo como se pudessem falar, dizendo:
– Missão cumprida.
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