Uma homenagem ao contraste!

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Como gostar de um lugar onde o povo não aprendeu a ser cidadão, onde os eleitos se furtam a cuidar da pólis, que pensa que só porque é maior e mais rico é melhor do que o resto do país, que insiste em se afirmar como reserva moral e guia econômico dos outros estados, que acredita piamente ter sido incumbido de uma missão divina de guiar o Brasil para o seu futuro, que tem ostenta em sua bandeira “Non Ducor Duco” (Não sou conduzido, conduzo)? Uma cidade que joga para longe os pobres, traz para perto os endinheirados, bate na sua população de rua, espanca homossexuais e ainda reclama da selvageria que ocorre além de Queluz?
O “paulistanismo” funciona como uma espécie de seita radical para os seus adeptos. Mesmo as pessoas mais calmas viram feras, libertando uma fúria bandeirante que parecia, historicamente, reprimida dentro do peito. Logo após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, José de Anchieta, com a ajuda de índios catequizados, ergueu um muro de taipa e estacas para ajudar a mantê-la “segura de todo o embate”, como descreveu o próprio jesuíta. Os indesejados eram índios carijós e tupis, entre outros, que não haviam se convertido à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial, como na fracassada invasão de 10 de julho de 1562. Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Vieram os bandeirantes, que caçaram, mataram e escravizaram milhares de índios sertão adentro. Da África foram trazidos negros, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas do interior ou o açoite de comerciantes e artesãos na capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de direito, que fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários.
Mas, apesar da frenética transformação do pequeno burgo quinhentista em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, o muro ainda existe, agora invisível. Só quem não quer enxergar vê na capital paulista uma terra em que todos têm direitos e oportunidades iguais.
A esperança de São Paulo é que uma nova geração, liberal em costumes, progressista politicamente, consciente com relação ao meio ambiente e aos direitos sociais e civis, menos arrogante e com uma atuação realmente federalista, consiga emergir com força em meio à decadência quatrocentona, travestida de modernidade ao longo do século 20, que ainda reina.
Se houve melhora na maneira como a administração municipal trata os mais humildes, isso se deve à sua própria mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque os “grandes líderes” naufragam em tempos de chuva e são reduzidos a pó em tempos de seca.
Baseando-me nisso, quero parabenizar São Paulo por todo esse tempo de falsa modernidade, liberdade e igualdade idem e por dar ao resto do país razões para acreditar que todo paulista(no) é preconceituoso (ainda que isso não seja uma verdade absoluta). Desejo que as próximas gerações consigam mudar essa péssima impressão!

Parabéns!
Fragmentos daqui.

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4 thoughts on “Uma homenagem ao contraste!

  1. >Bem, gosto de Sampa e tive a sorte de conhecer uns paulista(no)s legais. Mas já tive experiências ruins por lá também, pelo fato de ser do Rio. Só que esse tipo de experiência acontece comigo em outros estados também, como em alguns lugares das regiões Sul Nordeste. Eu acho até engraçado, porque as pessoas acabam levando pro lado pessoal mesmo. "Mas eu nem conheço você e você nem me conhece!" é o que passa pela minha cabeça sempre que esse tipo de coisa acontece, rs. É uma situação chata, mas não a ponto de interferir negativamente na minha viagem.Bem, desejo um Brasil menos preconceituoso, afinal.Beijão, Glória!

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