Por acaso você sabe com quem está falando?

A moda dos desprezíveis

Olá, tudo bem?

Pois é amigos, eu acreditava que o próximo post desse empoeirado blog seria algo mais propício para a época, mas, como ainda falta MUITO pra vida ser do jeito que a gente quer, vou despejar aqui uma última experiência “natalina”.

Um certo indivíduo, possivelmente não satisfeito com a sua própria vida, resolveu me abordar na rua e me interpelar como se toda a autoridade do mundo estivesse em seu poder. Perguntando sobre diversos assuntos, ele procurava sempre os direcionar para a minha pessoa. Lógico que as perguntas eram completamente pessoais e eu não conseguia entender onde, exatamente, a conversa iria desembocar.

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Do Motorista que nasceu sabendo dirigir…

Ele, o divertido dono da loja mais descolada da cidade, olhava todos os dias o sol da manhã pela vidraça da loja que iluminava tudo! Sempre atencioso, cuidava para que todos que fossem à sua loja tivessem a melhor impressão. Como seria diferente com ela? A moça que ía todos os dias comprar sorvetes e revistas… Quieta e sem atrativos, ela fazia questão de passar sem ser notada.

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Acácia.

Chovia muito e fazia um frio de rachar enquanto eu tomava um tinto bem doce e lembrava do dia em que fiquei só.
Quando a porta bateu e percebi que estava só, eu senti que estava só… E chorei!
O tinto era doce, doce contraste das salgadas lágrimas que deixei escapar ao lembrar, mas me fazia lembrar ou não me deixava esquecer daquelas noites frias de rachar em que eu me sentia quente sem queimar.
Nas lembranças eu conseguia ouvir Miles ou ainda Chet.
Levantei-me, olhei a chuva pela janela micro do apartamento e senti como se o meu corpo não fosse mais meu. Senti calafrios e não tomava mais conta dos meus pensamentos.
Andei até o quarto, arrumei a bolsa e bati a porta… Bati e a sensação de solidão estava ali novamente, como quando eu havia chorado, chorado pela última vez com sinceridade.
Saí, desci escadas, senti a chuva e andei… Sem que eu percebesse, alguém levou meu corpo. Sim, eu estava tomada, possuída, entregue.
Não arrumei a bolsa, não desci escadas, não andei na chuva, não passei frio, mas cheguei exatamente onde queria, onde sempre quis.
Vi o que jamais esperei em toda a minha vida! Meu corpo quis chorar.
Não!
Precisei de força pra entender tudo aquilo, precisei de lucidez. Não tinha! Lucidez alguma esteve comigo.
Eis que dormiam, ao som da chuva, com uma transparente e fina coberta. Os corpos entrelaçados!
Meu corpo? Queria correr, chorar, gritar, morrer, se jogar.
Apenas um braço moveu-se para dentro da bolsa. Senti frio e vi… Meus olhos brilhavam e pela primeira vez depois dessa jornada eu me senti. Senti meu corpo. Era eu novamente!
Pensei: “A solução está nas minhas mãos… Viver, morrer!”
É delicioso o som da libertação, acompanhado do aroma de um sangue redentor.
Era a minha missão. A minha e a de quem tomou meu corpo e me levou. Agora sei que não estava só!
Que as forças divinas me protejam!
Que todos os santos me sejam como guarda!

Vermelho

Acordaram e fitaram um ao outro por instantes e perceberam que eram metades de um inteiro que se encontravam ali e ela ouviu aquela voz grave e sonolenta dizendo bem perto:

– Quem diria… Estou absolutamente apaixonado por você.
Ela sorriu como concordância de tal declaração e era o cheiro do desejo que estava no ar. Então, algo parecido com amor banhou a cama naquela manhã.
Jogaram-se juntos no chuveiro para mais um dia comum e seria factualmente comum, não fosse pela correspondência que ele recebera antes de sair de casa – um envelope pardo sem remetente com uma foto dele próprio e uma única palavra no verso da foto dava-lhe a exata resposta de quem o enviara – A Carne. Deixou a informação para depois. Deixou a vida para depois.
Durante toda manhã recebeu mensagens excitantes da namorada para quem se declarava em absoluta paixão sob os lençóis da sua cama e não pensava em mais nada além de encontrá-la para realizar os desejos da amada expressos pelos recados cada vez mais quentes. Sua vida tomara um novo rumo após aquela manhã. Havia decidido que casaria com aquela que seria a última mulher da sua vida e então tomou um rumo diferente e foi à joalheria escolher a cor do seu futuro. Preparou-se toda a tarde para o jantar e para a surpresa enquanto tremia por dentro de medo e paixão.
Enquanto isso, no outro lado da cidade ela sofria sem saber o que acontecia e nem muito menos o motivo pelo qual passava por torturas e ataques daquela forma. Um seqüestro e o corpo já em carne e sangue aparentes. Naquele momento ela pensou na voz do amado absolutamente apaixonado e pronto para viver o grande amor e na chance que teve de ser feliz numa vida mesquinha.
Depois de sessões seguidas de torturas, ela, já sem as unhas e com a face cheia de incisões e sangue, foi levada ao que chamam de ‘O último’. Chegando lá, era apenas a sombra do exaustor e das grades o que se via, pois os olhos estavam machucados e o som infernal das gotas de água do esgoto incomodava e assustava a cada instante. O seu pavor era tamanho e o cheiro do medo estava no ar e chegava a incomodar tamanha inocência.
        Subitamente os passos de um salto alto lentamente a fizeram pensar:
– Estou salva. Então gritou. – Eu estou aqui, me ajudem!
Sua única ânsia era pela vida naquele momento e não importava como, sairia dali de algum jeito. O som do salto se aproximou e a voz sussurrou com um hálito ácido:
– Ele faz gostoso, não faz? Ele te chama de cadelinha e vadia? Você gosta dos tapinhas?
E o susto foi imenso e os nervos já não agüentavam e seu corpo não obedecia mais os comandos cerebrais. Suando em bicas e chorando em desespero ela pediu para não morrer. Pediu por todos os santos e repetidas vezes. Clamou por sua vida, clamou por seu sangue.
Quando o salto silenciou, ela ouviu a voz feminina e satisfeita:
– Você a ama? Diga… Você a ama?
Então seu clamor aumentou e suas súplicas se tornavam cada vez mais intensas.
– Diga que a ama se não quiser que ela morra!
Passou o celular descartável para a sua vítima e disse:
– Diga que o ama!
Ela só chorava e não conseguia falar absolutamente nada. Ao que ouviu um grito bem perto:
– DIGA QUE O AMA OU VOCÊ MORRE!
(Eu te amo)
        Para que ela pudesse ouvir a voz do seu amado pela última vez, o telefone ficou em viva-voz e ouviu-se em prantos:
– Deus, não a deixe morrer!
        E a raiva deixou que uma .40-PT100 descarregasse do outro lado da linha seus 11 projéteis.
        Silêncio e desespero tocavam-se nesse momento e depois disso o único som que se ouvia eram os passos do salto alto vermelho saindo como se pudessem falar, dizendo:
– Missão cumprida.